You are currently viewing Valentina e o vento no rosto

Valentina e o vento no rosto

Ela entrou no consultório já diferente da imagem que muitos conheciam.

Valentina era uma mulher bonita, elegante, reconhecida. Uma arquiteta admirada em Campinas e fora da cidade. Daquelas pessoas que parecem ter sido feitas para criar beleza. Mas naquele dia não havia espaço para fama, reconhecimento ou estética. Havia apenas uma paciente extremamente fragilizada diante de mim.

Não fui o primeiro oncologista da sua jornada.

Ela me procurou numa fase muito avançada da doença, quando talvez estivesse buscando algo difícil de explicar. Talvez uma última opinião. Talvez alguém que ainda enxergasse alguma possibilidade onde quase ninguém mais via.

O câncer de mama havia se tornado agressivo. Já existia acometimento da meninge. As dores de cabeça eram intensas. Ela tinha visão dupla, dificuldade para engolir até a própria saliva, alterações de pares cranianos, limitação física importante. Precisava de ajuda para tomar banho. Comer exigia esforço.

Era impossível ignorar a gravidade da situação.

E justamente naquele período começava a surgir no Brasil uma nova estratégia terapêutica em oncologia: os chamados anticorpos-droga conjugados. Para o subtipo de tumor dela (HER2 positivo) passávamos a ter acesso ao Trastuzumabe-deruxtecano.

Lembro perfeitamente das conversas.

Eu pensava, silenciosamente, se insistir em tratamento naquele contexto não poderia representar apenas um exagero terapêutico. Um prolongamento difícil de sofrimento. Mas ela queria tentar. E, acima de tudo, ainda existia nela algo muito importante: vontade de viver.

Seguimos.

E então veio aquilo que, na oncologia, às vezes acontece de maneira quase inacreditável.

Já no primeiro ciclo, a dor melhorou muito.

No segundo, ela saiu do leito.

Pouco tempo depois, voltou a caminhar, retomou autonomia, recuperou a própria rotina e uma qualidade de vida que parecia simplesmente impossível semanas antes.

Mas o que mais me marcou não foram os exames.

Foi a vida reaparecendo.

Ela voltou a trabalhar. Voltou a criar. Retomou projetos pessoais e profissionais. Voltou a viajar para a Europa, lugar pelo qual era apaixonada.

Até que um dia, durante uma consulta, ela comentou algo aparentemente simples, mas que nunca mais saiu da minha memória.

Disse que havia voltado a andar de bicicleta.

E então completou:

— “Eu achei que nunca mais fosse sentir o vento no rosto pedalando.”

Aquilo me atravessou de um jeito difícil de explicar.

Porque, naquele instante, percebi que muitas vezes nós, médicos, falamos sobre meses de sobrevida, resposta parcial, controle de doença, curvas, estatísticas… mas o que realmente importa para alguém pode ser algo infinitamente mais simples.

O vento no rosto.

A sensação de liberdade.

A possibilidade de pedalar numa rua qualquer durante uma viagem.

A chance de existir novamente fora da condição de paciente.

Ela viveu assim por quatro anos.

Quatro anos que talvez muitos julgassem improváveis naquele primeiro encontro.

Pedalando ciclo após ciclo, fomos construindo juntos uma jornada bonita. Não perfeita. Não fácil. Mas profundamente viva.

Até que a doença voltou a ganhar terreno.

E, com a mesma lucidez e elegância com que viveu esse período, ela já havia deixado documentado que não queria procedimentos fúteis ou sofrimento desnecessário no fim da vida. Respeitamos isso.

Sua despedida foi coerente com tudo aquilo que ela havia sido durante a jornada: consciente, firme e humana.

Mas a lembrança que ficou para mim não é a da progressão da doença.

É a daquela frase.

Porque existem histórias que fazem o consultório valer a pena.

E poucas traduzem tão bem a essência da medicina quanto alguém que voltou a sentir o vento no rosto quando tudo parecia perdido.

Deixe um comentário