Eu não conheci o doutor Roberto Bandeira nos tempos da faculdade. Gostaria de ter tido o prazer!
Curiosamente, conheci primeiro a filha e o genro dele, meus amigos, médicos, contemporâneos de formação. E só mais tarde a vida me apresentou aquele homem de jeito simples, sorriso largo e olhar sereno que, desde o primeiro encontro, me causou uma sensação muito difícil de explicar.
Eu olhava para ele e enxergava muito do meu pai.
Talvez a psicologia explique isso como transferência. Talvez explique por que alguns vínculos médicos se tornam diferentes. Mais profundos. Mais delicados também.
O doutor Roberto era um cirurgião plástico da velha guarda. Daqueles médicos de antigamente que fizeram de tudo um pouco antes de consolidarem suas carreiras. Operou tórax, abdome, trauma. Pertencia a uma geração em que o médico aprendia medicina vivendo dentro do hospital.
Depois construiu seu nome como cirurgião plástico de técnica reconhecida.
Mas nada nele lembrava vaidade.
Pelo contrário.
Era um homem simples. Tão simples que seu verdadeiro lugar no mundo não parecia ser o centro cirúrgico, nem consultórios sofisticados. Era um sítio.
O sítio do doutor Roberto Bandeira.
Ali ele parecia inteiro.
Falava dos bichos com carinho genuíno. Chamava todos simplesmente de “meus bichinhos”. E um dia me mostrou um vídeo que nunca mais saiu da minha cabeça.
A filmagem tinha sido feita pela esposa, companheira inseparável, uma mulher igualmente simples, bonita e extremamente afetuosa.
No vídeo, ele chegava abrindo a porteira do sítio.
E então começava a cena.
As galinhas corriam na direção dele fazendo uma verdadeira festa. Cachorros apareciam abanando o rabo. Gatos surgiam no meio da confusão. Era impossível assistir sem sorrir.
Mas havia um detalhe.
No final da gravação, atrasado em relação aos outros, aparecia um galo manco vindo apressado para recebê-lo também.
A esposa ria ao fundo.
E eu assisti àquele vídeo muitas vezes depois.
Porque ali existia uma verdade muito bonita: aquele homem respeitado, médico experiente, tecnicamente admirado, era profundamente feliz naquele lugar simples, cercado pelos próprios afetos.
O câncer apareceu primeiro no cólon.
Desde o início, ele deixava claro que não tinha desejo de enfrentar tratamentos agressivos demais. Não se mostrava afeito à ideia de quimioterapia. Conversamos muito sobre isso, e eu respeitei sua decisão.
Anos depois, a doença voltou.
Primeiro no fígado.
Depois no pulmão.
Mais tarde, no sistema nervoso central.
E ainda assim, em nenhum momento, ele perdeu aquilo que talvez fosse sua característica mais marcante: a simplicidade.
Nos encontros, nunca parecia revoltado. Nunca se colocava como vítima. Falava mais do sítio do que da doença. Mais dos bichinhos do que dos exames.
Como se intuitivamente soubesse exatamente onde a vida realmente acontecia.
A última internação foi difícil.
A doença havia avançado bastante. Ele já permanecia grande parte do tempo sedado. O cenário deixava claro que a despedida estava próxima.
Lembro perfeitamente do dia em que fui visitá-lo.
Abri a porta do quarto devagar.
Lá dentro estavam apenas ele e sua esposa.
Ela sentada num cantinho, silenciosa, olhando para algum ponto distante, provavelmente perdida entre lembranças, exaustão e amor.
E tocava no quarto do hospital uma música sertaneja antiga.
“Galopeira.”
Entrei exatamente durante o refrão.
Naquele instante, tive a sensação de estar invadindo algo muito íntimo. Quase sagrado. Como se aquela música fosse uma oração silenciosa entre os dois.
E era impossível não perceber como tudo fazia sentido.
O homem simples.
O sítio.
As galinhas.
O galo manco.
A vida inteira longe de excessos.
E agora aquela despedida embalada por uma música raiz tocando baixinho num quarto de hospital.
Ela percebeu minha presença.
Eu me aproximei devagar, dei um beijo na testa dele, abracei sua esposa e permaneci ali até o fim da música.
Sem pressa.
Sem precisar dizer quase nada.
Horas depois, o doutor Roberto Bandeira partiu.
Mas algumas pessoas deixam marcas que não desaparecem.
E, até hoje, quando escuto “Galopeira”, não lembro primeiro da música.
Lembro daquele quarto.
Daquela despedida silenciosa.
E do sítio onde um homem verdadeiramente simples era recebido com festa até por um galo manco que sempre chegava atrasado.
